“Monoculturas da Mente x Agroecologia de Saberes” é tema do VIII Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia

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A Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil (REGA Brasil) promoveu seu VIII Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia (ENGA), que ocorreu no campus III da Universidade Federal da Paraíba entre os dias 16 a 20 de dezembro na cidade de Bananeiras, região do brejo paraibano. Paraíba de resistência, terra de Margarida Alves, Elisabeth Teixeira, João Pedro Teixeira entre outras/os tantas/os lutadoras e lutadores.

O encontro contou com a presença de 43 grupos de agroecologia de diferentes regiões do país que se encontraram a fim de trocar experiências, debater a estrutura organizativa da REGA e alternativas de fortalecimento dos grupos que a compõem, fomentando um debate agroecológico politizado e crítico, visando ampliar e fortalecer esta rede de apoio mútuo.

A partir do tema “Monoculturas da Mente x Agroecologia de Saberes” o encontro traz à tona e salienta a importância de refletirmos sobre o porque e a finalidade da educação e da produção e difusão dos conhecimentos e das tecnologias geradas nas universidades.

Afinal, qual o sentido/a finalidade da trajetória acadêmica, da formação profissional e da produção de conhecimentos realizadas nas instituições de ensino? Para que/quem fazemos extensão/estudamos/pesquisamos?

Monoculturas da Mente x Agroecologia de Saberes

Os ENGA’s visam constituir um espaço formativo de práxis pedagógica que possibilite o dialogo e o desenvolvimento do senso crítico, bem como a convergência, a interação e a articulação entre grupos, coletivas/os, organizações e sujeitos interessadas/os na Agroecologia. Os ENGA’s são frutos da proposição dos chamados Grupos de Agroecologia (GA’s) que historicamente emergem nas universidades como pontos de resistência e de criação de perspectivas autônomas na construção e disseminação do conhecimento (no ensino, na pesquisa e na extensão). São agrupamentos que surgem do questionamento e da saturação acerca das convencionais relações de ensino-aprendizagem (as quais, por conseguinte, se refletem nas relações em sociedade e vice-versa) centralizadoras, autoritárias e hierárquicas, altamente teóricas e carecentes de conexão e comprometimento com a realidade social circundante.

Os GA’s colocam em cheque a razão instrumental* e as dinâmicas educativas voltadas meramente à lógica produtivista, voltadas ao lucro, ao adestramento para o mercado de trabalho e suas demandas tecnocráticas, mercantis e industriais. Essa concepção instrumental, nas ciências que pensam na questão agrária, se manifesta via a imposição de uma perspectiva única e hegemônica de agricultura e de “des-envolvimento” rural voltados à lógica industrial e capitalista (Agronegócio), baseadas no pacote tecnológico da “Revolução Verde”, no latifúndio, no monocultivo e na produção de commodities para exportação. Se “monocultiva” uma educação para a subserviência da população às elites brasileiras, herdeiras das tradicionais oligarquias rurais, submissas ao capital internacional, que subjugam o povo a uma exploração extrema de sua mão de obra e dos recursos naturais.

Refletindo acerca destas questões, constata-se que não é possível pensar em um projeto de emancipação econômica, sociocultural e politica sem pensarmos e contestarmos o modelo e os processos educativos. Nesse sentido, os ENGA’s constituem-se em laboratórios-escola de aprendizagem teórica e prática e de desconstrução que visa contestar o todo do tradicional modelo educativo – sejam suas instalações e espaços físicos, seus métodos, suas teorias, suas dinâmicas relacionais, bem como suas intenções e direcionamentos. Sendo assim, tudo que envolve o encontro possui uma intencionalidade educativa, num entendimento de educação que coloca no cerne da questão as formas de relação: sejam elas relações socioambientais, econômicas, culturais, éticas e/ou políticas – relações interpessoais, ou do ser humano com a natureza e os animais, ou a relação com a/o outra/o e a/o diferente, relações com o alimento, com o trabalho, com as tarefas, etc. Tudo isso visa uma desconstrução e a re-construção, tanto subjetiva como coletiva, a partir de dinâmicas com princípios baseados na autonomia, na solidariedade, na horizontalidade e no compartilhamento.

Quem não reflete, repete

O encontro possibilitou tecer acúmulos quanto à construção e à difusão da agroecologia, todavia com um olhar mais atento às questões internas da rede, permitindo se pensar sobre a REGA, encaminhando-se pontos pertinentes à estruturação dos grupos e da rede.

Durante o evento se vivenciou a partilha e o mutirão. O projeto de educação almejado, proposto e implementado pela REGA em seus encontros busca o compartilhamento igualitário de experiências e saberes. Fundamentando-se no trabalho coletivo autogestionado, no apoio e na confiança mútua e no estabelecimento de espaços de reflexão, de nivelamento de compreensões e de deliberações consensuadas, o conhecimento se constrói e se partilha coletivamente. O que nos alimentou foi feito por diversas mãos, os espaços pensados e construídos cooperativamente. Nossos espaços privados se misturavam com o publico, gerando uma convivência singular. Cadenciada pelas toadas, a programação enriqueceu o ambiente com discussões sobre: “Democratização dos meios de Comunicação”, “Gênero e Feminismo”, “Educação do campo”, “Educação indígena”, “Feiras agroecológicas e luta contra os agrotóxicos”, “Juventudes do campo”. As/os facilitadoras/es eram protagonistas de ações nessas temáticas, estando presentes representantes de movimentos sociais, agricultoras/es e educadoras/es.

No encontro a necessidade de debates políticos foi permanente, com a perspectiva de avaliar como os grupos e a própria rede podem se fortalecer mutuamente, particularmente diante do atual cenário político-econômico brasileiro. Nesse contexto, ponderou-se sobre quais desafios a agroecologia tem a enfrentar, dentre eles citam-se alguns questionamentos, reflexões e provocações surgidas nos debates: “O protagonismo feminino não será dado, ele será tomado, criado e conquistado”; “Não estamos consumindo alimento, estamos consumindo mercadoria”; “Nos dão as sementes, os venenos e os remédios”; “É necessário pensar o Brasil a partir do campo e de seus povos”; “Como os povos do campo vão se relacionar com Estado?”; “Reforma ou Revolução Agrária?“; “Discussões sobre os limites da via reformista e a necessidade de refletir sobre uma via revolucionária para superação do sistema capitalista e a transformação radical da sociedade“; “Existe ou existiu democracia no campo brasileiro? Limites da social-democracia enquanto sistema político.”

Um dos pontos mais marcantes do encontro foi a busca pela estruturação, organicidade da REGA e por um afinamento no entendimento identitário comum, enquanto uma rede que conecta e catalisa interações e construções entre grupos, organizações e coletivas/os. A REGA se manterá com uma estruturação em GTs (grupos de trabalho), mas permanecendo em constante evolução, podendo futuramente transmutar-se do modelo de GT’s para “Células de Estudo e Trabalho (CET’s)”. Os GT’s serão compostos por representantes dos diferentes grupos e regiões integrantes da rede de forma rotacionada. Dentre os GT’s estão “Comunicação”, “Recursos”, “Articulação”, “Formação Política – Agroecologia pra que(m)?” e o GT temporário “Organização da Rede”. As/os negras/os presentes protagonizaram a constituição do grupo trabalho “Negritude e Agroecologia” para fomentar na REGA o debate étnico-racial. Essa iniciativa foi uma conquista importante, tendo em vista o racismo enquanto fator estruturante das desigualdades, bem como a necessidade da participação e atuação da juventude negra nos espaços onde se constrói agroecologia.

Apesar de o último ENGA ter ocorrido na região norte, neste encontro ela não esteve representada. Mantem-se o desafio de aproximar e catalisar pessoas, processos e grupos da região norte do país, para que de fato se teça uma rede de abrangência nacional.

É o primeiro ano da realização dos Encontros Regionais de Grupos de Agroecologia (ERGA’s), que ocorreram nas regiões Centro-Oeste (Urutaí/GO), Sul (Florianópolis/SC)  e Sudeste (Alegre/ES) do país. Na ocasião foram feitos repasses e trocas de experiências sobre os ERGA’s**, sendo possível constatar a dinamização e o fortalecimento das interações regionais que estes eventos proporcionaram.

Somos animais e sementes, geradoras/es e propagadoras/es.

Foi um momento importante para a reflexão sobre o que é o formato de rede e como atuar a partir dessa dinâmica organizativa. Atuar enquanto rede é um desafio, um caminho que aprende-se a trilhar trilhando e que se mostra não apenas como um meio de resistência, mas também como um organismo que permite a diversidade, a descentralização, a criatividade, a troca e a afetividade. Na perspectiva preconizada pela REGA, a revolução que se imagina passa a ser um uma construção e transformação cotidiana e permanente, um processo, uma constância nas atividades, o próprio caminho, e não o momento final de um caminhar. Trata-se de um devir***.

A vivência e a convergência proporcionadas pelo ENGA cumprem seu papel unindo nos mesmos espaços uma diversidade de pensamentos e parcerias que caminham na perspectiva da emancipação, catalisando as possibilidades da elaboração de saídas comuns aos dilemas políticos contemporâneos – entendendo a importância politica de nos conectarmos, unirmos e organizarmos em tempos de agravamento de opressões e retirada de direitos, perpetrados pelo capitalismo.

* A racionalidade instrumental é uma perspectiva preponderante na educação formal, a qual idealiza a racionalidade como algo essencialmente bom e que por conseguinte, a partir de sua abordagem, se gerarão bons resultados para o conjunto da sociedade; a racionalidade instrumental não problematiza e coloca em questão os interesses envolvidos e a finalidade da produção e difusão do conhecimento, da ciência e da tecnologia, ou seja, não reflete sobre o porque e o para que/m se direciona a construção do conhecimento.

** Agenda 2017

Próximos ERGA’s (previsão para ocorrerem no primeiro semestre):

Centro-Oeste: Cidade de Goiás, Goiás Velho (GO); Sul: Pelotas (RS); Sudeste: Rio Pomba (MG). O I ERGA do Nordeste foi proposto para ser no sítio do Brotando Emancipação do Grupo Crítica Radical de em Cascavel – CE.

V Sementário da REGA Brasi: Botucatu/SP (à confirmar), data a definir.

IX ENGA + X Congresso Brasileiro de Agroecologia + VI Congresso Latinoamericano de Agroecologia + V Seminário de Agroecologia do Distrito Federal e entorno – Setembro, Brasília/DF.

*** Devir: 1. Dar-se, suceder, acontecer, acabar por vir. 2. [filosofia] Movimento permanente pelo qual as coisas passam de um estado a outro, transformando-se. = MUDANÇA, TRANSFORMAÇÃO.

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Texto: Tatiana Weckeverth – Comunicadora ABA/ Articuladora REGA Brasil

Katarine Silva – Coletiva Artemísia/REGA Nordeste

Larissa Harissa – Grupo Gira-sol/REGA Sudeste

A co-autoria também manifesta uma perspectiva de educação e comunicação emancipatória: trabalho coletivo e solidário, autogestão da comunicação almejando construir um registro e uma compreensão histórica comum, que contemple e sintonize diversas percepções acerca dos processos.

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