Terreiros Culturais: Modernidade, Territórios e Paisagens Culturais

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A experiência pedagógica da disciplina “Terreiro Cultural” na UFV é produto de sonhos coletivos que misturam cultura, agroecologia e construção coletiva com os movimentos sociais à arte de ensinar e aprender

Por Priscila Motta Rosado (Graduanda em Economia Doméstica, na Universidade Federal de Viçosa, email: prissmott@gmail.com)

Introdução ao cortejo

Aula sobre Educação Popular com Prof Marcelo Loures dos Santos e Priscila (Foto: Acervo próprio)

Valmir Pulga foi uma das pessoas importantes na história do assentamento Denis Gonçalves. Ele lutou pelos direitos das famílias acampadas, participou do processo de resistência, viu o resultado e conquistou seu pedaço de terra. Amante da fotografia, das culturas populares e afro-brasileiras, sempre quis aproximar as manifestações culturais para sua comunidade. Foi um militante engajado, sempre presente, de pulso firme, muito bem quisto por todos e todas do Movimento Sem Terra (MST), por aqueles que o conheceram e que veio a falecer no ano passado (2016).

Há um tempo em conversa com o Pulga, ele contou seu sonho de que fosse feito um Terreiro Cultural no Denis Gonçalves. As pessoas com quem ele falou não esqueceram suas pretensões e, em meio a oportunidade de criação de uma disciplina diferenciada na Universidade Federal de Viçosa (UFV), começaram a dar os primeiros passos para que esse sonho fosse realizado, como uma forma de homenagear essa pessoa tão querida.

Contrapondo então, as pedagogias e metodologias tradicionais utilizadas dentro das salas de aula nas universidades, surgiu a disciplina “PRE 416 – Terreiros Culturais: Modernidade, Territórios e Paisagens Culturais” na UFV através do Programa TEIA de extensão universitária. No qual promove a interação entre variados projetos (de extensão, ensino e pesquisa dessa universidade), agentes e atores sociais pelos princípios da educação libertadora.

A composição docente orientadora da disciplina constituiu numa equipe multidisciplinar, permeando as áreas de conhecimento dos cursos de geografia, dança, agronomia, educação, medicina veterinária. O mesmo ocorreu com a discente, que vieram de cursos de todas as ciências do campus. Assim, no começo deste período (2/2017) foi formado um coletivo tinha um único propósito: aprender a construir um evento com gestão coletiva, com metodologias participativas e lúdicas, reconhecimento e potencialização das habilidades individuais e coletivas, troca de saberes com base agroecológica na cooperação, solidariedade, valorização dos saberes e culturas populares.

Neste grupo, pudemos contar com representação de movimentos sociais, com uma enorme diversidade de personalidades com fome de conhecimento, vontade de colocar a mão na massa e empatia por outras realidades. Com pessoas sonhadoras, pragmáticas, sistêmicas, realizadoras, articuladoras e artistas. Para construir o espaço, nossas atividades alternavam a teoria e prática, com base nas práxis da pedagogia Freireana, nas quais o diálogo é essencial para a problematização das realidades vivenciadas por homens e mulheres, para o estímulo à reflexão, para a escuta atenta e ação transformadora de seus contextos.

Os encontros de cunho teórico aconteceram em instalações da universidade. Ora na sala de aula com uso de retroprojetores e rodas de conversa, ora no quintal do Museu de Solos, em meio a árvores, utilizando materiais didáticos, com círculo de culturas e com mesa de partilha. Nesses momentos, tivemos o prazer de contar com a participação de educadores e educadoras da UFV, de colaboradores de outras instituições e organizações, de colaboradores, do movimento indígena e entre outros, com temas multidisciplinares. Enquanto isso, as atividades práticas se deram na articulação conjunta com a coordenação do MST local, em viagens ao território e em caminhadas transversais, com direito a guias singulares nos apresentando os lugares, pessoas, à história do território, da luta pelo direito à terra e por uma vida digna.

Durante esse tempo, alguns acontecimentos foram essenciais para a construção. Dentre eles o entendimento do Terreiro, bem como o sentimento de pertencimento, a mobilização da equipe na universidade e da coordenação no assentamento, as interações no campo, as metodologias participativas, registros dos encontros e o Círculo dos Sonhos. Em destaque os últimos três. As metodologias participativas foram os meios artísticos, pedagógicos e lúdicos; para a educação efetiva no sentido de estimular a reflexão crítica, a transformação das diversas realidades e fomentar a emancipação dos indivíduos para uma sociedade mais justa. Exemplos, foram as rodas de conversas, círculos de culturas e dos sonhos.

Ciranda Sem Terrinha do MST Foto: Acervo Turma

Os registros dos encontros foram feitos por fotos e relatorias objetivas. Estes foram os relatos escritos das aulas e visitas a campo, acordos e encaminhamentos, com a finalidade de manter todos que estivessem no acompanhamento da construção, cientes do que já havia sido discutido e acordado durante o processo, com informações corretas. O Círculo dos Sonhos, como metodologia organizativa de um coletivo para a realização de uma ação específica, foi utilizado na disciplina e no assentamento para descobrirmos nos nossos sonhos para o Terreiro. Potencializou a concretização, nos auxiliando no planejamento, na organização e no trabalho. Teve grande importância no empenho de todos e na satisfação de cada um.

Sonhamos, assim, juntos com um Terreiro Cultural chamado Valmir Pulga num dia de sol, envolvido por mística, com protagonismo dos assentados e assentadas, muitos convidados, um evento participativo, com mesa da partilha, oficinas, diversificados artistas populares, feira de sementes crioulas e mudas, alimentação saudáveis da agricultura familiar preparadas com muito carinho, bingo, muita música boa, comercialização de produtos locais, caminhadas transversais por rotas, contação de histórias, muita dança, cores, sensações e sorrisos espalhados.

Por final, mas não menos importante, o evento não teria possibilidade de acontecer se não tivéssemos o acolhimento dos assentados e assentadas, do carinho, do cuidado mútuo, da mobilização, disposição e trabalho da coordenação, que mantiveram sempre presentes e foram reais protagonistas dessa história.

 

Abrindo Caminho para o Terreiro Cultural Valmir Pulga

Oficina Panela Cultural – Formação de Artistas Populares Militantes (Foto: Acervo próprio)

Com tantos sonhos a serem realizados, o Abre Caminho aconteceu como preliminar do Terreiro Cultural. Foram montadas comissões para organizar e reunir o que era necessário para o dia. Tivemos a comissão de produção, cultura, comunicação, formação, saúde, infraestrutura, coordenação e secretaria.

Na véspera, envolvidos nas comissões e colaboradores foram para o local e fizeram os preparativos. Ressignificando o espaço, roçaram o terreiro de café, montaram geodésicas de bambu para as oficinas e ambientação, montaram os equipamentos de som, de iluminação, da cozinha, decoraram e deram apoio na produção dos alimentos para o evento. Os que não puderam ir, articularam o que ainda faltava. Logo o esperado dia 03 de dezembro chegou, com ele muito calor, algumas nuvens, chuviscos e raios solares. Começou, então, a colheita dos frutos dos trabalhos com a chegada de colaboradores e convidados de Viçosa, do Assentamento Olga Benário (Rio Branco, MG), do Acampamento Gabriel Pimenta (Coronel Pacheco, MG), de Juiz de Fora, Belo Horizonte, Airões, Acaiaca, entre outras localidades. Mestres e mestras da cultura popular, do Congado de Córrego do Meio e Folia de Reis.

A abertura do evento aconteceu nos portões da “Antiga Fazenda Fortaleza de Santana”, com falas de 3 coordenadoras do assentamento e de um dos professores da disciplina, apresentando a quem ia pela primeira vez a história local, do MST naquele território e das pessoas que deixaram sua marcar (Denis Gonçalves e Valmir Pulga). Logo após, tivemos a mesa da partilha, com frutas, bolos, broas, pão, geleia, compota, café, leite, chá. Alimentos artesanais, agroecológicos, feitos por moradores, moradoras e colaboradores, trazidos para repartir com todos no desjejum. Trazendo a memória dos cafés feitos outrora com grãos moídos na hora, coado no filtro de pano, combinado com uma prosa boa e acolhimento humilde da vó.

Fala de Abertura feita por Elis, assentada e educadora MST (Foto: Cris Silva)

Seguimos para as oficinas, momento de formação para reflexões, debates e trocas. Elas ocorreram paralelamente, posicionadas em lugares abertos para que as pessoas ali presentes pudessem transitar, parando naquelas que tivesse afinidade com o tema. Houve oficinas sobre Cosmética Natural, Tambor e Dança, Panela Cultural (Formação de Artistas Populares Militantes), Pedagogia da Alternância (Educação Popular), Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC´s), História e Cultura Puri e Vídeos no Celular.

Passando o meio dia, houve a pausa para o almoço. Alimentação farta, saborosa, cheia de cheiros e variedade de pratos. Em muitos presentes as PANC´s, outros a origem de cultivo da Reforma Agrária e de movimentos agroecológicos regionais.  Todos preparados com muito esmero também por moradoras e apoio de alunas, desde o dia anterior. O bingo começou depois, trazendo a alegria com muita brincadeira e diversão a todos. Ele foi feito com intenção de arrecadar recursos para a reforma da cozinha comunitária, que por vezes faz alimentos para tantos que por ali passam. E por se tratar de uma estrutura antiga, precisa de reparos e cuidados.

Almoço feito com alimentos da Reforma Agrária e PANC´s do assentamento (Foto: Cris Silva)

Aproveitando o palco do sorteio, emendaram a programação e explicaram o funcionamento das rotas, que logo começaram. Eram 4 no total, com destinos o cemitério, hospital, capela e senzala. Em cada uma, houve uma caminhada transversal, foi guiada por historiadores natos com muita contação de histórias sobre o percurso, do destino final. Foi um momento cheio de descobertas, debates e reflexões sobre os significados residentes ali.

Na volta, a reunião novamente foi apreciada na mesa de partilha, no descanso e nas apresentações culturais. O coletivo de dança Micorrizas convidando para entrarem na dança libertadora, instigando a crítica sobre os aprisionamentos dos corpos e das mentes. O samba de roda entrelaçou quem observa com a musicalidade raiz popular, muito batuque, vozes, cores e movimentos.

A hora da partida chegou junto pôr do sol. Para finalizar, então a coordenação fez agradecimentos da participação de todos presentes, convidou para participarem do Festival de Arte e Cultura da Reforma Agrária e para que retornem mais vezes. Foi celebrado o sentimento de realização, a satisfação pelo trabalho e aconchego.

 

Celebração

Feira de troca de sementes (Foto: Bruna Matos)

A celebração, portanto, teve duas fases. Uma foi o encerramento do Terreiro Cultural, com as apresentações musicais e culturais. E a da disciplina, em um sarau, com recital de poesias, contação da história do território por meio de uma linha do tempo, desenhos, árvore de material reciclado de fotos, músicas próprias, exposição de fotos, apresentação do sistema de “Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros” e um zine. Que seguiram na direção do celebrar as orientações dos mestres e mestras, dos conteúdos trabalhados nos encontros e das experiências tidas no evento. Bem como pelo sonho realizado, das amizades conquistadas, dos esforços incessantes, dos sorrisos dos olhos, dos abraços, dos frutos da mãe terra, dos ensinamentos dos movimentos e trocas infindas.

 

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