
Assim como as águas do Velho Chico, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) está em movimento o tempo todo! Nos dias 8 e 9 de dezembro, as comissões organizadoras do 13º CBA, que aconteceu em outubro na cidade de Juazeiro, na Bahia, reuniram-se novamente na cidade, com as bênçãos do Rio São Francisco, para fazer acontecer as oficinas de avaliação do evento.
O 13º CBA levou cerca de 8 mil pessoas ao campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em quatro dias de muito encantamento para falar sobre a convivência das pessoas com os territórios que ocupam, no contexto das mudanças climáticas. Tudo isso com muito debate, muito respeito à diversidade, muita arte, muita alegria e muita fé no futuro com a agroecologia!
As oficinas de avaliação do 13º CBA, realizadas na Univasf e na Roça do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), foram marcadas por importantes aprendizados e reflexões coletivas sobre os rumos da agroecologia no Brasil.
Nas avaliações, a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia) e as organizações parceiras destacaram a força do Semiárido na construção do evento, a necessidade de aperfeiçoar metodologias e articulações internas, e os desafios de diálogo com instituições governamentais e científicas.
Núcleo de Estudos em Agroecologia na Univasf inicia projeto que fomenta Rede Territorial

Entre debates sobre comunicação popular, fortalecimento político, logística e participação social, o CBA reafirmou seu papel estratégico na promoção da convivência com os territórios, na incidência por políticas públicas e na valorização das práticas agroecológicas, consolidando-se como um marco para os movimentos, organizações e comunidades envolvidas.
Um dos destaques levantados nas reuniões de avaliação do 13º CBA foi a aprovação do projeto para fortalecer a Rede Territorial de Agroecologia do Sertão do São Francisco Baiano e Pernambucano, com ações que serão executadas pelo Núcleo de Estudos em Agroecologia (NEA) Sertão Agroecológico.
Com sede no Campus Ciências Agrárias da Univasf em Petrolina (PE), o NEA Sertão Agroecológico tem promovido e apoiado experiências e organizações que promovem a Agroecologia nos territórios do Sertão do São Francisco Baiano e Pernambucano.
A Rede Territorial de Agroecologia que será beneficiada com o projeto do NEA foi criada em 2014 durante a realização do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), também na UNIVASF em Juazeiro. Essa Rede tem como propósito articular ações e iniciativas de promoção de ideias e práticas agroecológicas locais, territoriais e regionais nas diferentes dimensões e escalas trabalhadas pela agroecologia. Graças à realização do CBA no território, diferentes pessoas e instituições mobilizaram-se para planejar e organizar o projeto em ritmo de força-tarefa.
De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia) e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), José Nunes da Silva, “o maior acerto desta edição foi construir o CBA com apoio e comprometimento da rede de organizações locais, como a Univasf, a Rede Territorial de Agroecologia do Sertão do São Francisco Baiano e Pernambucano, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), a Rede Ater Nordeste, o IRPAA, o Serviço de Assessoria a Organizações Populares (Sasop), a , a Universidade do Estado da Bahia (Uneb de Juazeiro) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE). Este novo projeto para o NEA da Univasf de Petrolina significa uma grande vitória nos nossos processos de construção coletiva do conhecimento agroecológico.”
O professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e participante da coordenação geral do CBA, Helder Ribeiro Freitas, comenta que o CBA possibilitou uma rearticulação e organização entre pessoas envolvidas nas iniciativas e práticas agroecológicas dos territórios Sertão do São Francisco e do Semiárido como um todo. “A gente tem procurado superar o isolamento dentro das universidades na promoção da agroecologia por meio da ação em rede. Trazer o CBA para esse espaço que amplia o nosso campo de ação do ambiente acadêmico para o conjunto do movimento agroecológico e das experiências de todo o Brasil, aponta a importância e o potencial da agroecologia para sociedade brasileira na promoção do desenvolvimento territorial e sistemas agroalimentares mais sustentáveis.”
CBA fortalece as redes regionais de agroecologia

O Congresso Brasileiro de Agroecologia é muito mais do que apenas um congresso acadêmico, restrito ao diálogo e modo de funcionamento científico clássico. Ao longo de suas edições, o CBA vem se organizando para aumentar cada vez mais o espaço de participação de ciências indígenas, de comunidades tradicionais, de quilombos, de pessoas de terreiros, pescadoras, sem-terra, ciganas, agricultoras e várias outras identidades.
Durante as reuniões de avaliação do 13º CBA, a professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e vice-nacional da diretoria da ABA-Agroecologia na gestão 2026-2027, Cláudia Job Schmitt, enfatizou que “a força deste CBA reflete a força do território, e a ciência não vai alavancar se não estiver enraizada com a ciência dos povos.”
O coordenador institucional do IRPAA e participante da comissão de coordenação geral do 13º CBA, Clérisson Belém, comentou que a existência de espaços como o Terreiro de Inovações Camponesas são essenciais para fortalecer a participação das pessoas agricultoras. “Eles se identificam muito na troca de sementes e nas feiras. O CBA é um espaço para o povo se identificar com o território, reconhecer e validar que as inovações partem do empenho coletivo de comunidades.”
Um Congresso que desperta o encantamento e os ventos de uma nova edição

Mais do que um simples evento, o Congresso Brasileiro de Agroecologia é um processo contínuo de construção coletiva e de socialização de saberes, conhecimentos e práticas que perpassam por todas as comissões organizadoras. É através dessa organização que pratica a agroecologia em diferentes áreas e níveis que o Congresso tem sido tão elogiado por sua diversidade, pela abertura de espaços para vozes que praticam a agroecologia nos territórios, pela inclusão da arte e da cultura popular na programação, e pela apresentação de mais de 2700 trabalhos realizados em torno de 19 eixos temáticos da agroecologia.
Para a coordenadora do IRPAA e participante da coordenação geral do 13º CBA, Nívea Rocha, “o CBA passa e as organizações ficam. Essa conexão entre as redes se fortaleceu ainda mais, com certeza. Por isso é importante celebrar os números, eles mostram o compromisso da ABA-Agroecologia e das organizações parceiras na realização do Congresso. Esse resultado positivo traz mais desafios para os próximos. O CBA é um evento que desperta o encantamento de outras pessoas.”
Para Priscila Machado, principal referência da secretaria executiva local, “ é uma grande alegria encerrar o ano com mais de 13 relatórios e avaliações sistematizados no nosso banco de dados e memórias virtuais. Até a publicação dos anais do Congresso estaremos envolvidas e envolvidos com inúmeros processos que garantem o registro dos aprendizados e o legado para as próximas edições”. Esse material já se encontra público e disponível para as pessoas e organizações que fizeram parte dessa construção do CBA, ainda que outras sistematizações em relatórios sejam construídos ao longo do primeiro semestre de 2026.
É fundamental reforçar que em breve um edital será publicado no site da Associação orientando o procedimento para candidaturas para 14ª edição. Esse edital orientará a construção de propostas e apontará aos aprendizados e acúmulos das últimas edições.
Os números do CBA

- 6.214 participantes (entre credenciados e isentos);
- 3.178 trabalhos submetidos e 2.732 trabalhos aprovados nos Tapiris de Saberes;
- 638 pessoas integrantes da Comissão Técnico-Científica – Tapiris de Saberes;
- Mais de 50 atrações no Festival de Arte e Cultura da Agroecologia (FACA);
- 380 filmes inscritos no Festival Internacional de Cinema Agroecológico (FicaEco);
- 69 crianças na Ciranda Infantil Ana Primavesi;
- 124 atividades autogestionadas;
- 67 palestrantes nos painéis e conferências;
- 22 mil refeições servidas na Cozinha Agroecológica Dandara dos Palmares;
- 8 toneladas de adubo orgânico gerados no Espaço Ciclar;
- 600 atendimentos realizados na Tenda da Saúde, Cuidado e Cura Mães Filinha e Ciana
- 29 pessoas inscritas na Rede de Comunicadores Populares;
- Feirantes das cinco regiões do Brasil, representando 11 estados.
Sobre o Congresso Brasileiro de Agroecologia

Realizado a cada dois anos desde 2003, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) é construído por uma ampla frente de parceiros nacionais e internacionais, configurando-se como o maior encontro latinoamericano de agroecologia.
Mais que um espaço de fortalecimento da agroecologia como ciência, o CBA é um território de diálogo entre diferentes formas de conhecimento, proporcionando legados agroecológicos em todos os territórios por onde ele passa.
O 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia aconteceu de 15 a 18 de outubro de 2025 na cidade de Juazeiro, na Bahia, e movimentou mais de 6 mil pessoas em torno de temas que relacionam a agroecologia com a justiça climática e a convivência das pessoas com os territórios.
Texto: Ludmilla Balduíno



