Manejo de Agroecossistemas

No XI Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), realizado entre os dias 04 e 07 de novembro de 2019, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), foi levantado a importância de um Grupo de Trabalho (GT) específico que acolhesse o tema – Manejo de Agroecossistemas – na Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Dentro da perspectiva da Agroecologia como ciência, prática e movimento que temos como referencial, e, diante do contexto atual desde retrocessos em relação ao debate dos agrotóxicos, transgênicos e tantos outros entraves à transição agroecológica, achamos necessário que o GT Manejo de Agroecossistemas dê visibilidade às experiências concretas que estão acontecendo nos territórios. Tais experiências dedicadas a mostrar caminhos e alternativas em agroecossistemas devem estar em diálogo com a sociedade e ao mesmo tempo apontar demandas para a construção do conhecimento. Dessa forma, temos o desafio de suscitar o debate, promover as experiências, relatos, artigos e resultados que possam compor uma sistematização de saberes e também que dialoguem com a proposta da Agroecologia como um redirecionamento e revisitação do que já trilhamos. Assim, poderemos potencializar o que ainda nos falta trilhar no caminho agroecológico do bem viver.

Como base para as discussões do GT, consideramos o conceito do Agroecossistema como sendo um “ecossistema cultivado,  socialmente  gerido”1   caracterizado  pelo  manejo  intencional  por  seres  humanos  para  gerar benefícios materiais e imateriais para a humanidade. Um agroecossistema abrange o conjunto de seres vivos e suas interações com seu ambiente físico2, incluindo centralmente os seres humanos, suas relações sociais e valores culturais. Contempla não apenas os serviços ecossistêmicos, mas todas as contribuições da natureza para as pessoas3. Este conceito engloba diversas perspectivas culturais sobre quais benefícios materiais, imateriais e de regulação dos agroecossistemas, são valorizados hoje, não estáticos e passíveis de adequação conforme as necessidades futuras4. O agroecossistema é um sistema socioecológico que considera a interação entre natureza e sociedade para o entendimento de sistemas complexos, com as propriedades emergentes que possuem e suas dinâmicas espaço-temporais¹.

1)  Objetivos do GT Manejo de agroecossistemas

O principal objetivo do GT Manejo de Agroecossistemas é ser um espaço aberto de diálogos e proposições acerca do tema e representar a ABA nos diferentes territórios, promovendo a interação e a construção do conhecimento agroecológico.

Para além deste, são estratégicos para o GT os seguintes objetivos:

  • Promover a sistematização de perspectivas e oportunidades do Manejo de Agroecossistemas a partir dos processos e experiências já existentes nos territórios;
  • Entender desafios e potencialidades dos territórios;
  • Promover o debate sobre as técnicas e tecnologias de base agroecológica para o manejo de agroecossistemas para processos em transição agroecológica, desenho e redesenho de sistemas;
  • Discutir o manejo de agroecossistemas considerando as características ecológicas, sociais, econômicas e culturais dos biomas e territórios.

2)  Temas a serem considerados pelo GT Manejo de agroecossistemas

Entendemos que os temas a serem tratados pelo GT Manejo de Agroecossistemas são amplos e envolvem desde a transição agroecológica até as formas de entender o funcionamento dos sistemas nos diferentes territórios, suas relações e dinâmicas de estabelecimento. Da mesma forma, fica claro que os temas não são estáticos e, assim como a agroecologia, estão em evolução e devem ter espaço para consideração sempre e quando for necessário.

Para esse primeiro direcionamento das ações do GT, consideramos alguns eixos e dentro de cada eixo, seus respectivos temas estratégicos.

1. Transição agroecológica
Diagnóstico participativo orientado à transição agroecológica; Indicadores de sustentabilidade de agroecossistemas; Metodologias de monitoramento de agroecossistemas; Diversificação de cultivos; Ecologia de paisagem; Ecologia da conservação; Restauração ecológica; Gestão integrada dos recursos da propriedade.

 

2. Desenho/Redesenho de agroecossistemas
 Sistemas de informações geográficas, Planejamento da propriedade agrícola; Sistemas agroflorestais e silvipastoris; Agricultura sintrópica; Agricultura biodinâmica; Agricultura natural; Agricultura regenerativa; Agricultura orgânica; Permacultura; Sistemas Agrícolas Tradicionais; Bioconstrução; Saneamento ecológico; Estratégias de convivência com a seca e mudanças climáticas; Restauração ecológica; Ecologia da conservação; Ecologia de paisagens; Diversificação de cultivos; Indicadores ambientais de regeneração dos agroecossistemas a partir de experiências de agroflorestas ou cultivos biodiversos; Análise para implementação de tecnologias sociais.


3. Manejo ecológico da saúde dos agroecossistemas (insetos, doenças e plantas espontâneas)
Manejo da agrobiodi
versidade incluindo plantas (espontâneas, “invasoras”, ruderais, silvestres, cultivadas), animais e microorganismos (benéficos, mutualistas, endofíticos, patogênicos, “pragas”), bem como suas aplicações como controle biológico, bioinsumos, caldas, extratos e óleos essenciais; Homeopatia; Polinizadores e polinização.

 
4. Manejo agroecológico de solo
Indicadores de qualidade do solo e sanidade de cultivo; Homeopatia; Uso e aplicação de insumos e bioinsumos; Adubação verde; Plantio direto; Microrganismos eficientes (ME); Rochagem; Cobertura do solo; Compostagem; Minhocultura e vermicompostagem; Rotação de cultivos; Plantios consorciados; Plantios diversificados; Práticas conservacionistas; Capina seletiva.

 
5. Manejo agroecológico da criação animal
Manejo agroecológico de pastagens; Criação agroecológica de animais; Alimentação alternativa e planejamento alimentar; Integração e composição de agroecossistemas; Sanidade animal (fitoterapia, homeopatia);
Integração-Lavoura-Pecuária (ILP); Sistemas Agrosilvopastoris; Pastoreio Racional Voisin; Bem-estar animal; Resgate/promoção/melhoramento de raças nativas; Legislação aplicada a pequenas agroindústrias familiares de produtos de origem animal.
 
6. Manejo da agro-sócio-biodiversidade
Botânica econômica; Etnobiologia; Extrativismo sustentável, produtos florestais madeireiros e não madeireiros; Diversificação de cultivos; Conservação, partilha, produção, armazenamento e melhoramento de sementes e raças crioulas; Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC); Beneficiamento da produção e agregação de valor; Sistemas Agrícolas Tradicionais.

 
7. Manejo das águas
Saneamento ecológico; Bacia de evapotranspiração; Zona de raízes; Irrigação; Coleta, armazenamento e uso de água de chuva; Estratégias de convivência com a seca; Gestão de recursos hídricos; Soberania hídrica; Restauração e conservação de fontes, nascentes e matas ciliares; Manejo ecohidrológico; Uso racional da água; Águas residuais.

 
8. Disponibilidade e acesso a técnicas e tecnologias agroecológicas
Máquinas e equipamentos adaptados aos sistemas agroecológicos; Ergonomia; Bioconstrução; Saneamento ecológico; Produção de bioinsumos; Mecanização adequada para as agriculturas familiar e coletiva; Tecnologias Sociais (mutirões, organização comunitária de casas de sementes, entre outras); Tecnologias da informação; Tecnociência Solidária aplicada ao manejo de agroecossistemas (fichas agroecológicas e outras).

Coordenação:

Camila Marina Teixeira Ferreira – E-mail:camilamtf@gmail.com
Eric Weller de Almeida – E-mail: ericweller80@yahoo.com.br
Fernando Silveira Franco – E-mail: fernando.agrofloresta@gmail.com
Luis Alejandro Lasso Gutiérrez – E-mail: alejandro.lasso@ufms.br
Maraísa Resende Braga – E-mail: bragamaraisa@gmail.com
Mariane Carvalho Vidal – E-mail: marianevidal19@hotmail.com

¹Petersen P.; Silveira L.M.; Fernandes G.B.; Almeida S.G. Método de análise econômico-ecológica de Agroecossistemas. Articulação Nacional de Agroecologia (Brasil). 1. ed. – Rio de Janeiro : AS-PTA, 2017. 246 p.

²Gliessman S.R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável – 2ª ed. – Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001.

³Seixas C.S. et al. Capítulo 2: Contribuições da natureza para a qualidade de vida. Pp. 35-91 in: C.A. Joly et al. (eds.) (2019). 1° Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Editora Cubo, São Carlos. https://www.bpbes.net.br/produto/diagnostico-brasileiro

4Díaz, S. et al. Assessing nature’s contributions to people. Science, [S. l.], v. 359, n. 6373, p. 270–272, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1126/science.aap8826