
Por Natália Almeida
Segundo o dicionário, comboio significa “Caravana de veículos de transporte, carregados com mercadorias diversas ou com pessoas, que se dirigem ao mesmo destino sob a proteção de uma escolta”. E é exatamente nessa direção que o projeto da Rede de Agroecologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) escolheu este nome para batizar seu projeto submetido e aprovado junto ao CNPq. A proposta foi fazer uma celebração ao projeto de Rede de Núcleos de Agroecologia do Sudeste realizado entre 2013 e 2015 pela Universidade Federal de Viçosa em parceria com outras universidades, centros de pesquisa e extensão, e institutos federais dos quatro estados do sudeste. Comboio tem a ver com andar junto, com travessia, com exploração de campo, com processo colaborativo, com proteger e cuidar dos coletivos. É nesse espírito que as seis unidades da UFF se reuniram para construir uma estratégia em rede.
O projeto “Comboio Agroecológico da UFF: sistematizando experiências e a construção do conhecimento agroecológico em rede”, com vigência de 30 meses e com apoio financeiro de diferentes ministérios, é uma iniciativa do edital nacional de Núcleos de Agroecologia coordenada pelo CNPq através da Chamada Pública CNPq/SG-PR/MDA/MDS/MEC/MPA/MPI/MS nº 01/2025.
Na UFF, a iniciativa selecionada é uma ação coordenada que envolve Núcleos de Estudos em Agroecologia (NEAs) situados em diferentes campus da UFF com presença marcante das unidades do interior, como Angra dos Reis, Rio das Ostras, Campos dos Goytacazes e Santo Antônio de Pádua, além da sede, em Niterói.
O projeto conta também com apoio da Reitoria da Universidade, em particular, através da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX). A iniciativa está sob a coordenação geral da professora Suenya Santos da Cruz do Instituto de Humanidades e Saúde – IHS/UFF de Rio das Ostras.
Segundo ela, o projeto chega em bom momento. Vivemos um contexto regional, nacional e internacional bastante adverso, com o crescimento da lógica do mercado se expandindo para mais territórios e permeando a vida cotidiana de forma a aprofundar o individualismo, o famoso “meu pirão primeiro”. Ademais, o padrão produtivo em curso vem provocando a aceleração das mudanças climáticas em função do aquecimento global que tem como efeito a ampliação da injustiça socioambiental, permeada pelo racismo ambiental. Dessa forma, o crescimento das desigualdades e conflitos socioterritoriais vem sendo respondido pelo mercado, tendo o Estado neoliberal como seu aliado, por meio da redução do orçamento para políticas públicas, privatização de empresas, serviços públicos e também de bens comuns (terra, água, ar…). Esse cenário convoca a sociedade a resistir e a reagir caminhando na construção coletiva de um projeto alternativo de sociedade que tenha a defesa da vida como centralidade.
No campo da educação, por meio do projeto Comboio, a agroecologia tem um imenso potencial em colaborar nessa jornada de luta por alimentação saudável, com aliança entre o campo e a cidade, por meio da construção de conhecimento pautada pelo diálogo entre saberes populares e científicos, em uma perspectiva interdisciplinar e intergeracional, convocando a juventude para o chão da vida. Um chão que envolve luta coletiva em defesa dos territórios e maretórios, em defesa de políticas públicas, em defesa da vida em sua riqueza sociobiodiversa, com recuperação de memória, de trabalho, de cultura a partir da construção de redes nos diferentes territórios onde os nossos NEAs estão inseridos.
Entre os principais objetivos do projeto está a aposta na organização de um amplo trabalho coletivo de sistematização de experiências e a realização de intercâmbios, seminários e demais atividades integradas de pesquisa e diálogo acadêmico sobre temáticas contemporâneas, além do avanço da qualificação das práticas concretas já desenvolvidas nos campi e nas propostas institucionais junto à Reitoria.
Histórico da Rede e lastro institucional
A Rede de Agroecologia da Universidade Federal Fluminense se concretizou em 2019, durante o I Encontro de Agroecologia da UFF, realizado no campus de Angra dos Reis. Ao longo desses sete anos, inúmeras iniciativas marcam a história dessa rede de ensino, pesquisa e extensão, com atuação em diferentes territórios no estado do Rio de Janeiro.
A Rede vem fortalecendo as vias institucionais para dentro da Universidade e consolidando uma abordagem coletiva e interdisciplinar para a construção de Ensino, Pesquisa e Extensão em Agroecologia na UFF, além de ser um espaço político para a construção de um programa permanente de apoio à agroecologia no âmbito da UFF.
A presença desses vários projetos e iniciativas de agroecologia na universidade mostram um campo do conhecimento em expansão dentro da academia, a partir do encontro entre as práticas científicas, conhecimentos populares e as experiências nos territórios.
Para José Renato Porto, docente integrante da Rede e vinculado ao Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR/UFF), o diálogo com a reitoria é fundamental para que os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos pelos NEAs se perpetuem como estratégias permanentes para a construção de conhecimento agroecológico nos territórios. Para além disso, José Renato destaca ainda que “os diálogos institucionais com a Reitoria tem como foco também incidir sobre algumas áreas em que a agroecologia tem enorme potencial para qualificar a administração da própria Universidade, como, por exemplo, a manutenção e manejo agroecológico de áreas verdes nos campi e a compra de alimentos da agricultura familiar, que ainda é uma questão que temos que fazer avançar na UFF”
Entre as ações anteriormente desenvolvidas pela Rede de Agroecologia da UFF estão os encontros estaduais que envolvem todos os campi da universidade em torno da pauta da Agroecologia. O primeiro foi realizado em Angra dos Reis, em 2019, e o segundo foi realizado em Niterói em 2022. Além dessa ação institucional narrada por José Renato e dos encontros de articulação, cada unidade desenvolve trabalhos localizados nos seus territórios. Áreas de plantio para consumo interno e pesquisa, formação e capacitação de estudantes, funcionários e lideranças em diferentes áreas temáticas, até mesmo a experiência de cozinhas-escola fazem parte do universo de ações desses vários núcleos que atuam promovendo ensino, pesquisa e extensão em diálogo com as comunidades.
Ações concretas e perspectiva nacional
Construir transições internas na universidade no que diz respeito à alimentação e fortalecer arranjos populares nos territórios para a promoção da agroecologia está no centro das ações que orientam a ação da Rede nesse novo momento. O projeto aprovado pelo CNPq está organizado em três eixos que orientam a ação da Rede e que buscam construir resultados concretos relacionados à produção e disponibilização de materiais de estudo e eventos de divulgação científica sobre vários temas estratégicos e a construção de momentos de intercâmbio e diálogo com movimentos, organizações e encontros de agroecologia no estado do Rio de Janeiro e também no contexto nacional.
Natália Almeida, que é bolsista e assessora nesse projeto, relembra que: “ano passado completamos 10 anos da finalização do projeto Comboio Agroecológico do Sudeste, que foi realizado pela Universidade Federal de Viçosa. Esse projeto atual da Rede da UFF se inspira nesta experiência da UFV e procura avançar. Atuar em rede, apesar de ser um princípio popular observado nas comunidades, infelizmente não é uma prática óbvia no meio acadêmico. Até mesmo no campo da Agroecologia é preciso esforço para que a gente não construa projetos isolados. Recuperar o nome significa mais do que um agradecimento ao legado deste projeto regional, representa o desejo de retomar a aposta no trabalho criativo e orientado por uma construção de parcerias que extrapolou a execução do edital”, reforça ela.
Andar ao lado da Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ), contribuindo com suas agendas estratégicas e das ações da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia) também são cuidados e princípios que orientam o horizonte de atuação do projeto.
Para saber mais:
Grupos que compõem a rede:
- Laboratório de Permacultura – Niterói
- NEA Aipim – Angra dos Reis
- NEA Chaia – Rio das Ostras
- Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos (NERU) – Campos dos Goytacazes
- Núcleo de ensino, pesquisa e extensão em Território, Ambiente e Agroecologia – NUTAGRO – Santo Antônio de Pádua











