A edição 2025 do Prêmio máximo da nutrição no Brasil tem duas agroecólogas que contribuem há décadas para a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SSAN); conheça as premiadas e entenda a importância desse reconhecimento para a agroecologia

As nutricionistas Islandia Bezerra da Costa e Sandra Maria Chaves dos Santos são as vencedoras da edição 2025 do Prêmio Lieselotte Ornellas, promovido pela Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN). A cerimônia de premiação ocorrerá durante a solenidade de abertura do Congresso Brasileiro de Nutrição (CONBRAN), no dia 12 de maio, em Curitiba (PR). As vencedoras irão receber o troféu “Prêmio Lieselotte Ornellas Nutricionista Destaque no Brasil”, e um certificado.
Lançado em 2014, o prêmio homenageia contribuições de nutricionistas com o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural da nutrição, e com a promoção e reconhecimento social da categoria no Brasil. Para concorrer ao prêmio, a pessoa precisa ser indicada por uma organização social, entidade de classe, ou instituição de personalidade jurídica, e seu currículo deve ser anexado à indicação.
Na edição de 2025, o prêmio celebra as contribuições de duas nutricionistas com carreira voltada para a agroecologia. A professora de nutrição que hoje atua na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e ex-presidenta da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), Islandia Bezerra, indicada pela Associação, celebra a conquista: “receber esse prêmio pela ASBRAN é algo imensurável. Eu, sinceramente, estou com poucos adjetivos para explicar tamanha alegria e emoção por esse reconhecimento.”
A professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ex-presidenta da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), Sandra Maria Chaves, também celebra o reconhecimento: “é para nós um grande prazer, uma grande honra ser destacada assim pela nossa categoria”.
Conheça a nutricionista indicada pela ABA-Agroecologia

Em janeiro de 2026, a ABA-Agroecologia tomou conhecimento do edital para a indicação do Prêmio da ASBRAN, para eleger a nutricionista-referência do ano de 2025. Foram realizadas conversas internas, na Diretoria da ABA-Agroecologia, até chegar ao nome de Islandia Bezerra.
Nascida no Rio Grande do Norte e hoje residindo em Alagoas, Islandia Bezerra foi, entre 2020 e 2023, a primeira nutricionista presidenta da Associação Brasileira de Agroecologia. Sua carreira profissional é amplamente dedicada à interface entre as Ciências da Nutrição, as Sociais e a Agroecológica, se dedicando muito fortemente à formação a partir do ensino, da pesquisa e da extensão. Já esteve no quadro de docentes da Universidade Federal do Paraná, e atualmente é professora na Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Entre 2023 e 2025, foi Diretora de Diálogos Sociais da Secretaria Geral da Presidência da República e Diretora da Secretaria Nacional de Abastecimento, Cooperativismo e Soberania Alimentar do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
Mediante os projetos de pesquisa e extensão, Islandia trabalha com temas tais como: a criação e/ou o fortalecimento de Sistemas Alimentares Sustentáveis e Saudáveis, a importância das feiras, dos circuitos curtos de comercialização e no fortalecimento de políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
“À medida que a Associação Brasileira de Nutrição reconhece a trajetória de Islandia, ela reconhece também a agroecologia como uma pauta importante para o debate no campo da nutrição. Por isso a gente decidiu fazer essa indicação. Estamos em celebração, porque com essa premiação, a agroecologia ganha espaço na interface com outros campos científicos no Brasil, e isso é uma estratégia que a gente precisa potencializar. Viva a trajetória de Islandia! Que ela seja inspiração para a formação de muitas outras nutricionistas agroecólogas, e que a gente consiga também expandir essa mesma experiência para outros campos. Estamos em festa!”, celebra José Nunes da Silva, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e atual presidente da ABA-Agroecologia.
Uma vitória para a agroecologia e para a nutrição

Os nomes das premiadas foram divulgados depois de quase dois meses de análises de currículos e de processo de escolha, realizada por uma comissão especial formada pela diretoria da ASBRAN e designados por ela, após análise de currículos e documentos, conforme exigência de edital, e sempre respeitando possíveis conflitos de interesse. E assim, pela primeira vez, está se abrindo a exceção do prêmio para dois nomes de contribuição relevante para a área de SSAN.
“No Brasil, a nutrição nasceu clínica e evoluiu de forma individualista. Porém, desde a década de 1940, quando formamos as primeiras turmas de nutricionistas, passamos por uma série de modificações, ampliações, e cada vez mais nutricionistas participam dos grandes momentos de discussão na sociedade brasileira. E essa edição do Prêmio Lieselotte Ornellas, que destaca duas nutricionistas brasileiras dedicadas ao campo, à agroecologia, à segurança alimentar, à política pública voltada para a promoção da segurança alimentar e nutricional e o combate à fome, é a expressão de uma categoria que está sensibilizada, voltada e estimulada a voltar o seu conhecimento, a sua capacidade técnica, para o compromisso social de contribuir com a transformação necessária ao país”, diz Sandra Chaves.
A também vencedora é professora de nutrição desde 1979, e sua trajetória é reconhecida pelo enfrentamento da insegurança alimentar e nutricional e o combate à fome. Suas ações se voltaram também para valorizar a profissão. Em 1996, criou juntamente com a professora Leonor Pacheco, o Núcleo de Estudos em Nutrição e Políticas Públicas na Escola de Nutrição da UFBA. Até 2024, coordenou a Rede Penssan, que é responsável pela realização dos dois últimos inquéritos sobre insegurança alimentar nutricional e fome no Brasil e reúne mais de 200 pesquisadores em todo o país.
“Sem esse diálogo constante que a academia nos permite e nos provoca, nós não chegaríamos onde chegamos. E entendo que isso é uma representação de um momento de amadurecimento, de crescimento da nossa categoria, ao valorizar esses temas que trabalhamos. Agradeço muito a toda a comunidade por isso.”, complementa a professora.
Islandia também comemora a oportunidade da convergência entre a Ciência Agroecológica e a Ciência da Nutrição que o prêmio oferece. “De mãos dadas, a gente vai conseguir construir outros caminhos, tanto na agroecologia, reconhecendo a Ciência da Nutrição como parte importante da sua defesa, da sua ampliação, como na Ciência da Nutrição, reconhecendo a agroecologia como sendo uma ciência que dialoga e, mais do que isso, que fortalece a produção, o acesso e o consumo de uma alimentação de qualidade em quantidade suficiente para todas as gerações, que respeita as culturas, os saberes, as práticas tradicionais do fazer comida, do cozinhar e do comer, juntos e juntas. O prêmio abre uma grande janela de oportunidades para a gente trazer o olhar da agroecologia para a abordagem da ciência da nutrição como uma ciência inclusiva, não racista, não fascista, não LGBTfóbica. São ciências co-irmãs. Assim, caminhando lado a lado é possível pensarmos (e concretizarmos) a transformação das realidades no campo, na roça, na produção, mas também na mesa, no consumo e no aproveitamento biológico dos nutrientes.”
Quem foi Lieselotte Hoeschl Ornellas?
Nascida em Florianópolis (SC) no início da primavera de 1917, Lieselotte fez parte da primeira geração de nutricionistas no Brasil. Sempre cultivou uma consciência humanista e ética, tendo dedicado boa parte de sua vida à capacitação profissional e valorização dos cursos de nutrição no país.
Seu espírito desafiador levou-a a expandir seus conhecimentos em cursos no exterior. A partir do contato com diversas culturas, acumulou experiências que enriqueceram o conteúdo de diversos livros que publicou, e que até hoje são referência em cursos de nutrição do Brasil. Sua participação como profissional e docente, durante 66 anos, contribuiu de forma singular para o desenvolvimento da enfermagem e da nutrição no país. Como presidenta da ASBRAN em seus primeiros anos, trabalhou intensamente pelo reconhecimento da profissão e da ciência da nutrição.
Saiba mais
- Acesse a página do Grupo de Trabalho Campesinato e Soberania Alimentar, da ABA-Agroecologia
- Relembre o painel do 13º CBA (2025) que debateu a territorialização da comida como nutrição, cultura e resistência
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