Estivemos no 4º Seminário Nacional de Ensino em Extensão Rural, no Ceará

Danielle Wagner (Conselho Fiscal), José Nunes (Diretor), Flaviane Canavesi (Editora da Revista Brasileira de Agroecologia) e Lívio Claudino (Vice-Presidente da Região Norte) representaram a ABA-Agroecologia no 4º Seminário Nacional de Ensino em Extensão Rural, em Juazeiro do Norte (CE)

Quatro pessoas representantes da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), incluindo o presidente José Nunes da Silva, estiveram presentes e desenvolveram diferentes atividades no 4º Seminário Nacional de Ensino em Extensão Rural, realizado na Universidade Federal do Cariri (UFCA), em Juazeiro do Norte, Ceará, entre os dias 5 e 8 de maio.

O encontro, promovido pelo Fórum Nacional de Professoras e Professores de Extensão Rural, avançou na compreensão da Extensão Rural como um campo científico e de produção de conhecimento que estrutura-se na interseção entre diferentes áreas do saber, articulando dimensões técnicas, sociais, econômicas, culturais, ambientais e políticas que conformam os diferentes territórios rurais.

O evento, que contou com a presença de Flaviane Cavanesi, editora da Revista Brasileira de Agroecologia (RBA) e professora da Universidade de Brasília (UnB), abriu espaço para o lançamento presencial da última edição da Revista, publicada em 1º de abril deste ano, e para uma chamada às pessoas presentes para enviarem seus artigos científicos para a edição especial de 20 anos da revista, que deve ser publicada em 16 de outubro.

Lívio Claudino, vice-presidente da região Norte da ABA-Agroecologia, mediou a mesa “Bases epistemológicas da Extensão Rural”, que fez importantes reflexões sobre a construção do conhecimento em Extensão Rural no Brasil e América Latina. Lívio e Danielle Wagner, do Conselho Fiscal da Associação, coordenaram com colegas do Fórum grupos de trabalhos de discussão sobre fundamentos e princípios epistemológicos da Extensão Rural. Ambos participaram também do grupo de trabalho de sistematização das sínteses dos GTs e da elaboração da carta final do evento, a Carta do Cariri, disponível para leitura ao final deste texto.

“A importância da nossa participação esteve em pautar a agroecologia nos debates sobre extensão rural. Isso ajudou a promover discussões mais qualificadas, que pensassem a Agroecologia como ciência, movimento e prática, dentro das discussões de alto nível que aconteceram no 4º SNEER”, relata Lívio.

Como legados do evento, Livio destaca tanto a ampliação da visibilidade da associação quanto o fortalecimento das discussões sobre extensão rural dentro dos espaços da ABA-Agroecologia. Ele lembra que um dos eixos estruturantes da Revista Brasileira de Agroecologia é justamente o de extensão rural.

Um ponto de convergência entre as frentes da extensão rural e da agroecologia está o debate aprofundado sobre que tipo de ciência nós estamos produzindo. “Aconteceram muitas discussões sobre o que é a ciência da extensão rural, e quais metodologias podemos avançar. Debate central e convergente também no âmbito da ABA-Agroecologia”, diz.

De acordo com a Carta do Cariri, publicada no dia 7 de maio pela organização do Seminário, a Extensão Rural, “enquanto campo do conhecimento, possui intencionalidade e compromisso ético-político com a transformação das realidades rurais, visando a autonomia e cidadania dos povos do campo.”

Leia a carta completa:

Carta do Cariri

Fórum Nacional de Professoras e Professores de Extensão Rural
Carta do IV Seminário Nacional de Ensino em Extensão Rural

No território dos povos Kariri, na Chapada do Araripe, sob o olhar atento do padroeiro das florestas, o Padre Cícero Romão Batista, reuniram-se professoras e professores de Extensão Rural e áreas afins, extensionistas rurais, estudantes, agricultoras e agricultores, e demais atores sociais no IV Seminário Nacional de Ensino em Extensão Rural no período de 05 a 08 de maio de 2026. A temática desta edição foi “Extensão Rural: fundamentos e princípios epistemológicos”. Em torno dessa questão aconteceram as discussões nos dias do evento, dando continuidade aos debates acumulados no âmbito do Fórum de Professoras e Professores de Extensão Rural.

Esse Fórum, foi criado em 2008, a partir das deliberações resultantes do I Seminário Nacional de Ensino em Extensão Rural (SNEER), em Itamaracá, Pernambuco, tendo como temática, “O estado da arte do ensino em Extensão Rural”. A “Carta de Itamaracá”, denuncia o modelo excludente de desenvolvimento hegemônico e reafirma o compromisso em defesa da Extensão Rural enquanto área do conhecimento. Enfatiza ainda, a importância da participação para mudanças estruturais, e a valorização da diversidade e dos diferentes saberes na construção de modelos de desenvolvimento mais sustentáveis.

No segundo SNEER, realizado em Santa Maria, em 2010, aprofunda-se o reconhecimento da importância da Extensão Rural e da agricultura familiar diante do paradigma da sustentabilidade. Reafirmam-se os processos formativos de forma inter e transdisciplinar, infraestrutura e fomento adequados para o desenvolvimento das ações de extensão, e ainda a relevância da atuação política do Fórum.

Após 15 anos, realizou-se novamente em Santa Maria, o III Seminário Nacional de Ensino em Extensão Rural com a temática “As instituições de ensino e a promoção da Agroecologia na Política de Extensão Rural”. Reforçou-se a necessidade de reconhecimento da Extensão Rural enquanto área do conhecimento científico, com metodologias, epistemologias, métodos e práticas próprias. Faz uma crítica à recorrente confusão entre extensão universitária e extensão rural e reafirma o papel central da disciplina de Extensão Rural na formação crítica e comprometida de profissionais para atuação nos territórios. Defende o reconhecimento dessa, enquanto componente curricular essencial nos currículos dos cursos, para além das Ciências Agrárias.

O IV SNEER realizado em Juazeiro do Norte, Ceará, na Universidade Federal do Cariri (UFCA), após promover reflexões sobre os fundamentos e princípios epistemológicos, reafirma o compromisso do Fórum na representação e fortalecimento deste coletivo, e enquanto espaço dialógico, político e de articulação permanente do ensino em Extensão Rural.

Avançamos na compreensão da Extensão Rural como um campo científico e de produção de conhecimento, dotada, portanto, de referenciais teóricos, metodológicos e pedagógicos próprios, construídos historicamente a partir do diálogo entre diferentes áreas do saber e das práticas sociais desenvolvidas nos territórios rurais. Seu reconhecimento como campo do conhecimento científico decorre da constituição de um conjunto diverso e sistemático de conhecimentos, produzido a partir da práxis extensionista e das interações estabelecidas entre sujeitos, instituições e territórios rurais. Ao mesmo tempo, o seminário aponta para a necessidade de aprofundarmos as reflexões sobre as bases epistemológicas da Extensão Rural.

Trata-se de um campo interdisciplinar e politécnico, cuja transversalidade mobiliza contribuições de distintos campos do conhecimento para compreender a complexidade das ruralidades brasileiras a partir das práticas extensionistas. Nesse sentido, o estatuto científico da Extensão Rural estrutura-se justamente na interseção entre diferentes áreas do saber, articulando dimensões técnicas, sociais, econômicas, culturais, ambientais e políticas.

Assim, a Extensão Rural, enquanto campo científico, não pode ser reduzida a instrumentos de difusão tecnológica ou à simples transferência de técnicas produtivas. Enquanto campo do conhecimento, possui intencionalidade e compromisso ético-político com a transformação das realidades rurais visando a autonomia e cidadania dos povos do campo. Sua produção científica e suas práticas educativas orientam-se pela compreensão crítica das dinâmicas sociais, econômicas, culturais, ambientais e políticas que conformam os diferentes territórios rurais.

A Extensão Rural articula, portanto, produção de conhecimento, ação educativa e intervenção social, constituindo-se como um campo científico voltado não apenas à interpretação das dinâmicas rurais, mas a compreensão da atuação extensionista na construção de processos de transformação social.

O ensino da Extensão Rural nos coloca o desafio de construir processos pedagógicos com os estudantes para a construção do conhecimento. Isso reafirma a necessidade de investimentos na formação de professoras e professores, objetivando garantir e aprofundar os debates e aprendizados sobre temas como reforma agrária, interculturalidade, relações sociais e de gênero, feminismos, juventudes, práticas e políticas antirracistas e, o papel de povos indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais, como guardiãs da sociobiodiversidade, dos saberes ancestrais e das práticas agroecológicas fundamentais para soberania e segurança alimentar e nutricional, preservação ambiental e fortalecimento do território.

Considerando os desafios da formação teórica/prática de extensionistas rurais, recomendamos que no ensino de Extensão Rural haja maior articulação e integração entre professoras(es), estudantes, extensionistas rurais, povos e populações do campo, das florestas, das águas e das cidades. Ressaltamos a importância da oferta dessa disciplina para diversas áreas e níveis de formação e apontamos a necessidade de investimentos para viabilizar a imersão nos territórios por meio de aulas práticas e atividades de campo.
Estudantes, agricultoras, agricultores e extensionistas rurais participantes do seminário reivindicaram maior participação nos espaços de discussão sobre Extensão Rural, como fóruns e seminários, buscando-se estreitar o diálogo entre diferentes sujeitos.

Por fim, reafirmamos o nosso compromisso com a defesa da vida e a manutenção dos ecossistemas que propiciam o desenvolvimento sustentável e a sadia qualidade de vida no campo e na cidade. Denunciamos o descaso público e o retrocesso no que concerne à preservação da Chapada do Araripe, território ventre que nos acolheu, e que sofre cotidianamente com o avanço do biocídio e do etnocídio resultante da expansão do agronegócio. Ressaltamos, a importância da agricultura familiar e de povos e comunidades tradicionais que são o acervo vivo de conhecimento milenar ancestral.

Juazeiro do Norte, 07 de maio de 2026.

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