Caminhos da ancestralidade no 13º CBA geram subsídios para iniciativas de apoio a povos e comunidades, terreiros e povos de matriz africana

Texto: Priscila Machado e Bruna Machado
Revisão: Lívia Santos, Natália Almeida, Ludmilla Balduíno e Gupo de Trabalho (GT) Ancestralidade*

A voz indígena ecoou em diferentes momentos do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, realizado em outubro de 2025 no campus da Univasf na cidade de Juazeiro, Bahia. Crédito: Equipe Retake.

Dentre tantas análises possíveis sobre o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), esse texto tem como foco a pluralidade e inclusão do público participante e, especialmente, na interface entre a agroecologia e os conhecimentos ancestrais. Entre outros processos, essa interface se materializou em espaços estratégicos de visibilidade e resistência, como a Cozinha das Tradições, os Tapiris de Saberes, os painéis temáticos, o Festival Internacional de Cinema Agroecológico (FICAECO) e as atividades autogestionadas.

Essa investigação fundamenta-se na compreensão da agroecologia não apenas como técnica produtiva, mas como campo científico, político e discursivo, essencial para a afirmação identitária e o uso ecológico dos bens comuns, das estratégias de adaptação e de resiliência frente à mudança do clima em comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana, e ciganos. Esse conteúdo é parte do relatório que sistematiza os resultados do projeto de pesquisa-ação “Diálogo entre Agroecologia e Povos Tradicionais”, desenvolvido em parceria entre a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e o Ministério da Igualdade Racial (MIR), no âmbito do Termo de Execução Descentralizada (TED).

A parceria institucional entre UNIVASF e MIR reforça o compromisso com a produção de dados qualificados que subsidiem políticas públicas voltadas à justiça racial, soberania alimentar e proteção dos territórios tradicionais, em consonância com agendas de reparação histórica e equidade.

Mobilização e articulação de lideranças

Pessoas indígenas de diferentes partes do Brasil marcaram presença no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, realizado em outubro de 2025 em Juazeiro (BA). Crédito: Equipe Retake.

O 13º CBA consolidou-se como marco na afirmação da agroecologia como campo indissociável das lutas por direitos territoriais e justiça social. Sua construção no Território Sertão do São Francisco foi pautada por estratégias históricas de resistência, articulando movimentos sociais, universidades e comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana.

Sob a ótica da igualdade racial, a articulação territorial garantiu que a agenda não fosse meramente acadêmica, mas uma construção insurgente enraizada nos conhecimentos das comunidades de fundo e fecho de pasto, quilombolas, de matriz africana, de terreiro e ciganas.

A realização de cinco oficinas preparatórias mobilizou cerca de 500 pessoas participantes, configurando espaços de planejamento coletivo e auto-organização, em consonância com os princípios da pesquisa-ação. Nesse processo, as pessoas participaram ativamente desde a etapa de planejamento do Congresso, não apenas na condição de convidadas, mas como protagonistas na construção política, metodológica e programática do evento.

As primeiras articulações ocorreram por meio dos movimentos de representação como a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), a Associação Nacional Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (ACBANTU), a Articulação Estadual das Comunidades Tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto, agricultoras/es urbanas/os de Juazeiro e Petrolina, o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (COMSEA) de Juazeiro, e organizações não governamentais (ONGs) que atuam diretamente nas comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana da região. Essa diversidade de pessoas garantiu que a “agenda comum” contemplasse as especificidades de nações negras, quilombolas, indígenas e demais comunidades tradicionais dos territórios.

Condições de acesso e participação qualificada

7° Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores, realizado durante o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, em outubro de 2025 na Univasf campus Juazeiro (BA). Crédito: Equipe Retake

O CBA de Juazeiro reuniu um total de 6.214 pessoas inscritas, provenientes de todos os estados brasileiros e mais 10 países, além de registrar a circulação de cerca de 8 mil pessoas em suas atividades.

Esta pesquisa foca na análise da pluralidade e inclusão do público participante, com ênfase particular na presença de comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana, refletida notavelmente na estrutura da Cozinha das Tradições e da Tenda da Saúde, e da participação étnico-racial na programação. Do total de pessoas inscritas, 1.641 (19,69%) foram beneficiadas com isenção, um mecanismo que garante a representatividade de grupos prioritários, como movimentos sociais, juventudes e, em destaque, agricultoras/es, povos e comunidades tradicionais.

O perfil de quem participou do CBA evidenciou a diversidade étnico-racial e a equidade de gênero do evento:

  • 57% mulheres (3.546);

Uma composição racial majoritariamente não-branca:

  • 35,6% pardas,
  • 22,1% pretas e
  • 3,0% indígenas.

A participação das comunidades tradicionais foi expressiva, somando-se:

  • 211 quilombolas,
  • 333 indígenas e
  • 78 integrantes de povos de terreiro,

destacando o papel essencial destes grupos na construção do conhecimento agroecológico.

Cabe destacar que os números apresentados podem ser ainda maiores, pois, durante o credenciamento presencial no evento, não havia a opção de autodeclaração. Essa funcionalidade esteve disponível apenas para as inscrições realizadas online.

Diálogos estratégicos: os painéis como espaços de afirmação da ciência ancestral

A sistematização das conferências e painéis do 13º CBA revelou a maturidade da Agroecologia como um campo de convergência entre a ciência acadêmica e a profundidade dos conhecimentos tradicionais. Mais do que debates temáticos, esses espaços funcionaram com objetivo de afirmação da ciência ancestral, onde a soberania alimentar e o manejo da biodiversidade foram apresentados como tecnologias de resistência e vida produzidas por povos quilombolas, indígenas, de terreiro, extrativistas, agricultoras/es familiares e comunidades de fundo e fecho de pasto. A participação estratégica de órgãos como o MIR, MDS, CONAB e COMSEA, em diálogo direto com lideranças da APIB, CONAQ, MPA e MST, evidenciou que a eficácia das políticas públicas — como a PNAPO e o PLANAAB — depende intrinsecamente do reconhecimento desses territórios como centros de produção de conhecimento e soluções para as crises climática e alimentar contemporâneas.

Os painéis paralelos dedicaram-se ao debate da Soberania e Territorialidade (Painéis 1 e 2): A conexão entre o “roçado e a cozinha” foi estabelecida como o eixo central da comida de verdade. A presença do Coletivo Cozinha das Tradições reforçou que a culinária é uma ciência de preservação genética e cultural, transformando o ato de alimentar-se em um ato político de ocupação territorial. Resistência ao Neoextrativismo (Painel 4): O debate sobre a questão agrária destacou como os povos tradicionais operam uma lógica contrária ao extrativismo predatório, propondo uma convivência com os biomas que protege a terra de processos de financeirização e degradação energética. Interculturalidade e Pesquisa (Painel 6): Ao reunir pesquisadoras/es acadêmicas/os, mestras e mestres de conhecimentos, benzedeiras e indígenas, o painel validou o diálogo de saberes como a metodologia oficial da Agroecologia. Ficou nítido que a pesquisa territorializada não apenas estuda o objeto, mas se constrói com e a partir dos conhecimentos, práticas e modos de vida dos povos.

A autogestão como prática de soberania

A Tenda dos Povos Indígenas ficou movimentada durante todo o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia. Crédito: Bernardo Câmara.

As 124 atividades autogestionadas realizadas no 13º CBA consolidaram o Congresso como um território de construção horizontal de conhecimento. No que tange ao objeto deste relatório, foi realizado um recorte analítico sobre aquelas que dialogam diretamente com a promoção da igualdade racial, o fortalecimento de povos tradicionais e a justiça ambiental. Para fins de sistematização, as experiências foram divididas em três eixos que demonstram a Agroecologia como uma ciência multidimensional e uma tecnologia de resistência.

Eixo 1: Alimento Sagrado, Biodiversidade e Identidade (Soberania Alimentar) – a comida é compreendida em sua dimensão espiritual e biológica, combatendo a insegurança alimentar através do fortalecimento de redes tradicionais.

  • O bode é comida boa e sagrada! Diálogo entre povos de matriz africana e comunidades de fundo e fecho de pasto, unindo a prática da criação animal à manutenção dos territórios ancestrais.
  • Nsumbu dá, Nsumbu quer: a sistematização do culto à terra no Candomblé Angola como uma prática milenar de segurança alimentar, onde a divinização da natureza garante a sua preservação.
  • Projeto Ecoile (Egbé toju aye): afirmação da horta e do terreiro como espaços de produção agroecológica e resistência política.

Eixo 2: Tecnologias de Cuidado e Saúde Ancestral – A saúde é tratada de forma holística, conectando o corpo negro e indígena ao território.

  • Proambiente Adapta: programa focado no desenvolvimento socioambiental, integrando práticas tradicionais de cuidado com o meio ambiente como estratégia de saúde pública e comunitária.

Eixo 3: Governança Territorial, Clima e Justiça Racial – Atividades que posicionam os povos tradicionais como protagonistas na solução da crise climática global.

  • Agroecologia e Adaptação Climática: análise das interfaces entre planos setoriais e a realidade dos povos indígenas e comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana, provando que não há adaptação climática sem a garantia da posse da terra.
  • Roda de Conversa pela Defesa dos Povos e Territórios: espaço de denúncia e articulação política contra os conflitos fundiários e o racismo ambiental.

Registros técnicos e pedagógicos da ancestralidade

Mulheres indígenas encontram-se no primeiro dia de 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, no campus Juazeiro (BA) da Univasf. 15 e de outubro de 2025. Crédito: Alisson Chaves.

A análise dos trabalhos apresentados no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), realizado em Juazeiro, no Semiárido baiano, permite identificar um conjunto de temas recorrentes que ultrapassam a dimensão técnico-produtiva e evidenciam a agroecologia como campo estruturado por conflitos territoriais e fundiários, disputas epistêmicas e enfrentamentos às desigualdades socioambientais. Esses temas configuram dados estratégicos para a atuação do Ministério, especialmente no fortalecimento da proposta de “Consolidação da análise científica: a Agroecologia como perspectiva de resistência ao racismo e defesa dos bens comuns”.

Conflitos territoriais e disputa pelos bens comuns

  • Um dos eixos mais recorrentes nos trabalhos refere-se aos conflitos fundiários e socioambientais. Destacam-se:
  • Impactos da mineração sobre povos e comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana, extrativistas, agricultores/as familiares;
  • Implantação de parques eólicos e solares em territórios camponeses de povos tradicionais e quilombolas;
  • Expansão do agronegócio e intensificação da especulação fundiária;
  • Restrição ao uso comum da terra, da água e da biodiversidade.

Os estudos evidenciam que tais empreendimentos frequentemente se instalam em territórios historicamente ocupados por populações negras, indígenas e camponesas, reproduzindo padrões de expropriação e invisibilização. A defesa do território, portanto, não é apenas reivindicação agrária, mas afirmação do direito à existência coletiva, à reprodução cultural, à conservação da biodiversidade e à soberania alimentar.

Para o Ministério, esse mapeamento recorrente de conflitos constitui um indicador empírico relevante, pois demonstra onde se concentram tensões estruturais e onde políticas públicas precisam atuar de forma integrada (regularização fundiária, licenciamento ambiental, proteção de povos e comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana).

Racismo ambiental como estrutura de desigualdade

Pessoas indígenas fazem pintura tradicional em pessoas participantes do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, realizado em 2025 em Juazeiro (BA). Crédito: Alisson Chaves.

Embora nem sempre nomeado explicitamente, o racismo ambiental e fundiário aparece como uma categoria transversal nos relatos. Ele se manifesta quando:

  • Comunidades negras e tradicionais são as mais afetadas pela destruição das florestas (desmatamento, perda de territórios);
  • Projetos de “desenvolvimento” desconsideram conhecimentos locais e ancestrais, deslegitimando práticas sustentáveis historicamente construídas por essas populações, que são as principais guardiãs desses ecossistemas;
  • Processos decisórios excluem populações historicamente marginalizadas.

A recorrência dessas experiências aponta que a agroecologia tem sido vivenciada como uma estratégia concreta de enfrentamento ao racismo estrutural, ao afirmar o valor epistemológico dos conhecimento ancestrais e a legitimidade dos modos de vida do Semiárido.

Transformar essa recorrência temática em dado sistematizado fortalece a consolidação da agroecologia como um campo científico que reconhece as desigualdades raciais na distribuição de riscos e recursos ambientais, bem como na gestão dos bens comuns.

Ancestralidade como fundamento epistemológico

Outro tema central é a ancestralidade como eixo estruturante das experiências. A presença de cordéis, performances afro-brasileiras, mandalas coletivas e exposições fotográficas revela que o conhecimento ancestral:

  • Integra memória, espiritualidade e técnica;
  • Reafirma epistemologias não hegemônicas;
  • Questiona a hierarquização entre ciência acadêmica e saber tradicional;
  • Insere essas experiências no contexto latino-americano, evidenciando que a produção de conhecimento no Semiárido dialoga com trajetórias históricas comuns de povos latino-americanos marcadas pela colonialidade, resistência e valorização de conhecimentos plurais.

Essa dimensão oferece base para sustentar, em termos científicos e políticos, que a agroecologia, para além de produtiva, constitui-se como um referencial epistêmico voltado à valorização de conhecimentos historicamente marginalizados.

Subsídios para a política nacional de fortalecimento das comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana

Ancestralidade presente no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, com diferentes formas, linguagens, cores e sabores. Crédito: Equipe Retake.

Os conflitos territoriais e a disputa pelos bens comuns constituem um dos principais desafios enfrentados por povos e comunidades tradicionais no Brasil. Nesse contexto, torna-se fundamental o fortalecimento de políticas públicas voltadas à regularização fundiária de territórios tradicionais, garantindo segurança jurídica e condições para a permanência das comunidades em seus espaços de vida e produção.

Além disso, é necessário integrar a proteção territorial às políticas de licenciamento ambiental, de modo que empreendimentos e intervenções considerem os direitos coletivos e os impactos sobre os territórios tradicionais. Recomenda-se ainda a criação de mecanismos permanentes de monitoramento de conflitos socioambientais que envolvam esses povos e comunidades, bem como a garantia efetiva do direito à consulta prévia, livre e informada em projetos ou políticas que possam afetar seus territórios, conforme os marcos legais e os princípios de justiça socioambiental.

Outro eixo estruturante refere-se ao racismo ambiental e fundiário como dimensão constitutiva das desigualdades sociais e territoriais. A incorporação dessa perspectiva na formulação, implementação e avaliação de políticas públicas é essencial para enfrentar as assimetrias na distribuição de riscos e danos ambientais que recaem de forma desproporcional sobre populações negras, quilombolas, indígenas e comunidades, terreiros e povos tradicionais de matriz africana. Para isso, é necessário produzir e sistematizar dados sobre desigualdades raciais na distribuição de riscos e impactos ambientais, evidenciando a exposição desproporcional de povos e comunidades tradicionais a processos de degradação ambiental.

Paralelamente, recomenda-se fortalecer programas e iniciativas que valorizem os conhecimentos tradicionais e a gestão comunitária dos territórios, reconhecendo essas práticas como estratégias fundamentais de proteção ambiental e de reprodução da vida.

A ancestralidade deve ser reconhecida como um fundamento epistemológico central para a construção de políticas públicas mais inclusivas e plurais. Nesse sentido, os conhecimentos tradicionais precisam ser valorizados como patrimônio científico, cultural e político, contribuindo para ampliar as formas de produção de conhecimento.

Recomenda-se a promoção de espaços institucionais de diálogo entre universidades, instituições públicas e comunidades tradicionais, favorecendo processos de intercâmbio e construção coletiva de práticas, conhecimentos e tecnologias. Além disso, é importante incentivar metodologias de pesquisa participativa e processos de sistematização de experiências agroecológicas, que permitam registrar, fortalecer e difundir práticas territoriais desenvolvidas pelas próprias comunidades.

O protagonismo de mulheres e juventudes também emerge como elemento central na construção de alternativas de desenvolvimento territorial. Políticas públicas devem priorizar o fortalecimento de redes agroecológicas de mulheres, bem como iniciativas de economia solidária que ampliem a autonomia econômica e política das mulheres nos territórios. Da mesma forma, é necessário promover políticas de sucessão rural que garantam às juventudes acesso à terra e oportunidades de formação e geração de renda, criando condições para sua permanência no campo. Reconhecer e valorizar o papel político das juventudes na defesa dos territórios e na construção de novas perspectivas de desenvolvimento é fundamental para a continuidade das lutas e das práticas comunitárias.

Por fim, a convivência com o Semiárido deve ser compreendida como uma prática política e um paradigma de desenvolvimento territorial. Nesse sentido, recomenda-se ampliar políticas de apoio às tecnologias sociais de convivência com o Semiárido, reconhecendo a experiência acumulada por organizações comunitárias e movimentos sociais na construção de soluções adaptadas às condições ecológicas da região. Também é fundamental fortalecer sistemas agroecológicos de produção de alimentos, que contribuem para a soberania e a segurança alimentar das comunidades. Além disso, políticas públicas devem incentivar práticas comunitárias de conservação da sociobiodiversidade, valorizando os conhecimentos locais e os modos de vida que historicamente sustentam a diversidade ecológica e cultural dos territórios.

*O GT Povos e Comunidades Tradicionais, Etnicidades e Ancestralidade é um grupo de trabalho da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia) focado em valorizar os conhecimentos tradicionais e promover práticas antirracistas na agroecologia.

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