Presidente da ABA fala sobre o Congresso Brasileiro de Agroecologia

Por Paulo Petersen,

Há dez anos, nesta acolhedora cidade de Porto Alegre, promovemos o I Congresso Brasileiro de Agroecologia (I CBA-Agroecologia). O momento histórico era excepcionalmente favorável. As condições para a realização do evento vinham sendo amadurecidas nos anos anteriores quando, pela primeira vez, um estado da federação assumiu politicamente o desafio de experimentar a internalização do paradigma agroecológico em seus órgãos e instituições dedicadas ao desenvolvimento rural. Entre outras iniciativas colocadas em prática pelo governo Olívio Dutra, destaca-se a série anual de seminários estaduais que, logo a partir da segunda edição, adquiriu também abrangência nacional e internacional. Esses eventos foram responsáveis pela criação de um fecundo ambiente de interação entre profissionais e estudantes de todo o país que buscavam exercitar o enfoque agroecológico nas práticas de ensino, pesquisa e extensão rural, ainda que isso significasse, via de regra, navegar contra a corrente em suas próprias instituições.

Um dos principais saldos positivos do processo incubado no Rio Grande do Sul foi justamente o rompimento desse isolamento mútuo em meio ao universo socioprofissional já expressivo em todas as regiões brasileiras. A emergência da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia) se fez no bojo dessa mobilização e criou as condições para que chegássemos a este VIII CBA-Agroecologia, após ter transitado por várias cidades das regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Cumpre assinalar que, em sua primeira década de existência, o CBA-Agroecologia proporcionou espaço para apresentação e debate de milhares de trabalhos acadêmicos (1.056 somente nesta oitava edição), todos publicados na Revista Brasileira de Agroecologia. Como inovação metodológica em relação aos demais eventos científicos, nossos congressos consagraram uma seção dedicada à apresentação de experiências práticas, ressaltando a importância da sistematização para a construção do conhecimento agroecológico. Além disso, fomentam também, em seus diferentes espaços de debate, a plena participação de agricultores e agricultoras como protagonistas dessa construção.

Muito se avançou nessa década. Já se contabilizam no país mais de uma centena de cursos oficiais de Agroecologia ou com ênfase agroecológica nos variados níveis educacionais. Além dessa evolução numérica, o I Seminário Nacional de Educação em Agroecologia, recentemente promovido pela ABA-Agroecologia, constatou a existência de progressos qualitativos dignos de nota. Universidades e empresas oficiais de pesquisa vêm se abrindo para inovar em suas formas de produzir e socializar conhecimentos e de interagir com as comunidades rurais. Núcleos de Agroecologia surgem e se consolidam Brasil afora. Redes interinstitucionais se articulam em âmbito territorial, estadual e regional. Criam-se assim condições favoráveis à efetivação de parcerias entre instituições científico-acadêmicas e organizações da sociedade civil para a execução de projetos educacionais e de pesquisa e para a promoção de seminários, simpósios, congressos e outras atividades destinadas a refletir criticamente os rumos do desenvolvimento rural a partir da lupa da Agroecologia.

Pouco a pouco, por intermédio dessa evolução descentralizada, alguns muros erigidos pelo positivismo lógico e pelo cartesianismo mecanicista e determinista vão sendo derrubados: práticas de ensino, pesquisa e extensão se alimentam reciprocamente por meio de processos de produção de conhecimentos territorialmente referenciados; disciplinas acadêmicas interfecundam-se a partir da realização de estudos inter e transdisciplinares sobre dinâmicas socioecológicas em agroecossistemas; os saberes científico-acadêmico e científico-popular dialogam entre si, aos poucos deixando para trás a pretensa exclusividade do conhecimento válido erroneamente atribuída ao meio acadêmico; os limites físicos e simbólicos dos campi universitários e das demais instituições de ensino e pesquisa se desvanecem com a presença intensificada de pesquisadores(as), professores(as) e estudantes nas comunidades rurais e de agricultores e agricultoras e representantes de povos e comunidades tradicionais nas instituições acadêmicas; novas abordagens metodológicas para a construção do conhecimento e novos instrumentos para registro e divulgação desses conhecimentos são criados e disseminados, restaurando o papel da cultura popular como fonte e veículo de novidades para o desenvolvimento rural.

A identificação desses embrionários, mas já notáveis avanços institucionais nas esferas epistemológica e metodológica é condição essencial para que possamos nos situar melhor no processo histórico em curso, visando descortinar estratégias de superação dos maiúsculos desafios que permanecem em perspectiva. Nesse sentido, vale iluminar outra face da trajetória que nos trouxe até aqui.

No ano anterior ao I CBA-Agroecologia, foi realizado no Rio de Janeiro o I Encontro Nacional de Agroecologia (I ENA), evento fundante da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), um espaço sociopolítico voltado à ação concertada de organizações, redes e movimentos sociais mobilizados em torno à defesa e à promoção de um mundo rural mais democrático e sustentável. Ao integrar-se sinergicamente na Coordenação da ANA, a ABA-Agroecologia procurou assumir seu nicho no processo de construção da Agroecologia no Brasil. Além de fomentar a coesão do campo científico-acadêmico em torno a um projeto alternativo para a agricultura e para o conjunto do sistema agroalimentar, a ABA-Agroecologia tem buscado mobilizar as inteligências e competências de seus sócios e sócias a fim demarcar sua presença no processo político como ator coletivo, assumindo para tanto uma dupla perspectiva. De um lado, denuncia as falsas promessas científico-tecnológicas nascidas do berço da agricultura industrial e de suas expressões político-ideológicas repercutidas pelo setor do agronegócio; por outro, anuncia caminhos para a superação da profunda crise socioambiental que se alastra em nossa sociedade em função exatamente da dinâmica expansiva da economia do agronegócio e de suas monoculturas e criatórios industrializados produtores de junk food.

Ao denunciar e anunciar caminhos contrastantes entre si, a ABA-Agroecologia explicita em seus congressos sua opção política e se alia a movimentos da sociedade que lutam pela saúde coletiva, pela justiça ambiental, pela economia solidária, pela soberania e segurança alimentar e nutricional e pela equidade entre gêneros em todos os âmbitos da vida social. Expurga-se assim o discurso da neutralidade científica que muito frequentemente tem sido empregado como artifício retórico pelos defensores do padrão científico-tecnológico dominante para assim se eximirem da responsabilidade – ou ocultarem sua irresponsabilidade – pelas consequências sociais e ambientais atrozes resultantes da disseminação de um modelo agroalimentar oriundo de práticas científicas supostamente isentas.

Diante dos obstáculos de grande envergadura que permanecem se antepondo a uma evolução mais consistente e ritmada da perspectiva agroecológica nas instituições da sociedade, o VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia realiza-se como um ato celebrativo de nossa breve, mas fecunda trajetória. Os desafios que estão postos para a continuidade dessa trajetória são proporcionais às nossas ambições. O tema de nosso Congresso não deixa dúvidas quanto a isso. Mobilizamo-nos para contribuir para a restauração da saúde do planeta. Essa é razão de estarmos aqui para celebrar o crescente reconhecimento nacional e internacional da Agroecologia como paradigma científico-tecnológico capaz de equacionar os críticos e decisivos dilemas alimentares, ambientais, energéticos, sociais, econômicos e culturais com os quais se defronta a Humanidade.

Celebramos também os avanços práticos. Nesse particular, cabe destaque o recente lançamento do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo) pelo governo federal. Mesmo compreendendo que as medidas incorporadas ao Planapo estão ainda muito aquém das expectativas e das urgências expressas pelas organizações da sociedade civil que contribuíram com a sua construção, entre elas a ABA-Agroecologia, não podemos deixar de ressaltar o que seu lançamento significa em termos políticos e simbólicos. Trata-se de um marco fincado no terreno em que se travam disputas pelos rumos de nossos sistemas agroalimentares. A luta pela expansão do alcance e da profundidade desse plano em sua futura edição, prevista para 2015, é tarefa que nos cabe. Avanços nessa direção cobram coerência com a trajetória constitutiva do campo agroecológico brasileiro, o que implica reconhecer a Agroecologia a partir de três facetas que se compõem em um todo indivisível: como uma prática social; como um enfoque científico; como um movimento social.

Sendo assim, estamos desafiados a dar continuidade às iniciativas de articulação e adensamento das redes locais/territoriais para que o paradigma agroecológico seja incessantemente exercitado e aprimorado com a participação ativa das comunidades rurais. Somos também convocados a atuar no sentido de estreitar as alianças estratégicas com movimentos sociais dos campos, águas, florestas e cidades que militam pela construção de uma sociedade mais democrática e sustentável.

Encerro estas linhas celebrando a inestimável contribuição dos muitos companheiros e companheiras do Rio Grande do Sul que há mais de dez anos deram arranque ao processo de mobilização que culminou na realização da série de Congressos Brasileiros de Agroecologia e na criação da ABA-Agroecologia. A esse grupo que permanece na lida militante e volta a nos acolher nesta oitava edição, rendemos nossa homenagem e expressamos nosso profundo agradecimento. Infelizmente, o destino quis que duas das mais brilhantes extrações desse grupo nos deixassem este ano: José Antônio Costabeber, incansável companheiro de luta e liderança proeminente na trajetória da ABA-Agroecologia; e Jorge Luiz Vivan, agroecólogo refinado, mestre das agroflorestas. Partiram deixando seus legados na forma de luz e assim permanecerão iluminando o caminho da Agroecologia.

(*) Paulo Petersen é presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA)

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