Um vitral construído pelos cacos da memória coletiva

Seminário Regional de Sistematização de Experiências na região Nordeste semeia reflexões e colhe aprendizagens coletivas a partir dos fazeres dos Núcleos de Agroecologia

anaEntre os dias 17 e 19 de Agosto foi a vez da região nordeste sediar o Seminário de Sistematização de Experiências dos Núcleos de Agroecologia, marcando a quarta etapa do Projeto de Sistematização. Na ocasião estiveram representados todos os nove estados nordestinos por meio da presença de 31 diferentes Núcleos de Agroecologia (NEAs) e demais organizações parceiras da agroecologia na região.

A proposta do Seminário, que ocorreu no Alto da Sé – centro histórico de Olinda (PE), na Casa de Encontros Convento da Conceição, e acontecerá em todas as regiões do país, é o de proporcionar a troca de experiências e a reflexão sobre os processos e métodos de construção e sistematização do conhecimento agroecológico, tendo na centralidade a análise das experiências concretas que estão em construção pelos Núcleos de Agroecologia constituídos nas universidades públicas brasileiras. Além desses objetivos, outro aspecto essencial dos Seminários é a intenção de aproximar, articular e promover uma maior integração entre os diferentes NEAs que tecem a RENDA – Rede Nordeste de Núcleos de Agroecologia (R-NEA Nordeste).

Educação Popular e Sistematização de Experiências: “Início, o fim e o meio”.

Experiências radicais de ser, carregadas de sabedoria e lida, precisam virar letra, palavra e página para compor história. Para não se perderem em cacos – de mim, de nós, de vida –, precisam ser registradas. Para se constituírem em cenário humano e rumo, significando o estar no mundo…” Elza Maria Fonseca Falkembach

No livro “Sistematizando: Juntando cacos, construindo vitrais”, Elza nos provoca a pensar a sistematização como uma possibilidade, uma ferramenta apropriada e apropriável para a recuperação e reflexão do viver compartilhado. Aprofundar as conexões e reflexões críticas sobre o processo de sistematização comprometido com a realidade ganhou destaque na programação do Seminário Nordeste que acionou diferentes dinâmicas e metodologias participativas nos três dias do encontro e, a partir do acumulo tecido na trajetória de muitas e muitos educadoras/es de núcleos e demais membros da ABA-Agroecologia no Nordeste, fez sobrevoos sobre as diversas dimensões envolvidas no processo de construção do conhecimento.

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O primeiro dia do evento foi dedicado à compreensão das relações tecidas entre a Construção do Conhecimento Agroecológico, a Educação Popular e a Sistematização de Experiências. Após a apresentação dos núcleos e organizações presentes, uma encenação sobre a “prova da rapadura” provocou debates sobre a necessidade da desconstrução da hierarquia na construção do conhecimento. Após o amplo e longo debate que esquentou a prosa, as/os participantes assistiram o vídeo “Educação Popular Freireana” da Rede Nacional de Educação Cidadã (RECID). Em seguida, divididos em cinco grupos, foram convidadas/os à refletir, analisar e apresentar as principais impressões coletivas sobre como a sistematização de experiências e a educação popular se relacionam na construção do conhecimento agroecológico e qual é o papel das e dos educadores populares nesse processo.

Para Ana Dubeux, facilitadora do Seminário Nordeste, as relações entre a Educação Popular e a Sistematização de Experiência são muitas, segundo ela “A Educação Popular é uma ferramenta antiga utilizada para pensar e refletir sobre a realidade e transformá-la. A sistematização vai beber na fonte da Educação Popular porque também pensa na perspectiva da transformação. A sistematização é um novo jeito de construir o conhecimento”.  

O segundo e o terceiro dia (18 e 19/08) do Seminário raiaram com a construção de uma instalação Artístico-Pedagógica para apresentar as práticas desenvolvidas pelos diferentes Núcleos de Estudos em Agroecologia (NEAs) nos territórios. A escolha da instalação foi feita por ser um dispositivo metodológico que dinamiza intercâmbios sensoriais e intelectuais e a integração de saberes, apostando na criatividade, nas diferentes linguagens e sentidos para falar e ouvir sobre as experiências vividas. Um destaque importante na construção da instalação por parte dos Núcleos foi a escolha de elementos inspirada nos princípios da Educação em Agroecologia (Vida, Complexidade, Transformação e Diversidade). De forma lúdica, elementos que representam os fazeres e saberes dos NEAs são dispostos no espaço e, através da interação entre as pessoas e as representações, os intercâmbios acontecem, contribuindo para novos caminhos de construção compartilhada do conhecimento.

“Autoria coletiva” foi uma das expressões que ocupou um dos cantos no painel de facilitação gráfica. A ferramenta, que compõe as estratégias visuais de registro no Seminário, buscou captar os principais elementos sugeridos pelos núcleos e organizações na busca coletiva da compreensão do “que é sistematização” e “quais seus objetivos”.

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Antes de encerrar o dia conversando sobre os percursos metodológicos, três processos de sistematização foram partilhados: a experiência da Casa das Mulheres do Nordeste, do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA e da Comunidade de Imbé (PE). Partindo dos casos concretos, as/os participantes foram divididas/os em três grupos para esclarecerem dúvidas, aprofundar questões e refletir sobre perguntas geradoras elaboradas a partir de várias dimensões que compõe o processo de sistematização de experiências.

Juntando cacos, construindo vitrais: quais os próximos passos?

O terceiro e último dia ocorreu após uma noite cultural, colorida pela roda de côco e afoxé do Grupo “Côco das Yabás”, formado por mulheres e localizado no centro histórico de Olinda. A partir da pergunta geradora “Como percebemos os princípios – vida, transformação, diversidade e complexidade – no fazer cotidiano dos outros núcleos?” as atividades da manhã começaram pelo partilhamento das impressões, reflexões e sensações, registradas em tarjetas que foram colocadas em um mural, acerca das diferentes experiências apresentadas pela instalação artistico-pedagógica. O esclarecimento e o aprofundamento acerca da sistematização de experiências se deu a partir da análise do produto da sistematização das três experiências apresentadas no dia anterior. As/os participantes foram divididos em três grupos que, após a análise, socializaram suas compreensões e discutiram o percurso metodológico a partir dos casos concretos.

A parte da tarde foi dedicada ao planejamento coletivo sobre como os núcleos darão prosseguimento ao processo coletivo de tecer a RENDA e os processos de sistematização construídos coletivamente por várias mãos, projetos e ações. Um painel de ações foi elaborado e, em seguida, outra importante decisão foi a escolha das experiências nordestinas que terão maior aprofundamento do processo de sistematização do projeto da acompanhamento específico do projeto da ABA-Agroecologia. Quatro núcleos foram priorizados na representação regional do Nordeste: Na Paraíba, apesar do foco no Núcleo do Instituto Federal da Paraíba, foi feita uma proposta coletiva por parte dos NEAs paraibanos que propuseram apoio mútuo na construção das atividades de sistematização, no sentido de realizarem um processo integrado e articulado de sistematização; além do processo coletivo da Paraíba, os NEAs “Cajuí” da Universidade Estadual de Piauí, o NEA Agrofamiliar da Universidade Federal Rural de Pernambuco e o NEA Trilhas da Bahia foram destacados como experiências que irão compor o mosaico de análise do Projeto de Sistematização no nordeste.

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Mesmo com a escolha das quatro experiências, todos os Núcleos estarão envolvidos com a sistematização. Esta é a intencionalidade dos Seminários que estão acontecendo nas diferentes regiões: fomentar um processo formativo compartilhado que instigue o protagonismo dos NEAs na construção do conhecimento agroecológico.

Confira outros registros fotográficos e audiovisuais do evento na página do facebook do Projeto de Sistematização: https://www.facebook.com/sistematizacaodeexperiencias/

Texto: Tatiana Furquim, Rodrigo Avelar e Natália Almeida

Fotos: Rodrigo Avelar

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